Nascida católica nunca fui praticante, mas sempre rezei. E ainda teve uma época em que eu ia à igreja, mas não rezava. Só sentava lá pelo silêncio. Nos tempos de EUA, a única coisa que eu fiz foi questionar a minha religião e em dois anos só entrei em uma igreja com o propósito de rezar. Mesmo assim, eu sempre pedia para as pessoas que tinham fé rezarem por mim.
Cheguei na França e mesmo sem ter as respostas para as minhas tantas perguntas, decidi que eu era mais feliz quando eu tinha fé. Ajoelhei na Catedral em Toulose e pedi minha fé de volta. Deus devolve a minha fé.
Então outro dia, resolvi que eu iria sair de casa SÓ para ir à igreja e com o único propósito de rezar. Sem essa de turismo. Peguei a bicicleta da mãe da Cindy, anotei o número da casa num papel (em caso eu me perdesse) e sai pelas ruas da cidade deixando a Mama morta de preocupação.
Era só seguir reto até o centro. E a igreja deveria ser no centro. Eu não conseguia me lembrar, mas achei que não podia ser tão difícil assim. Cheguei na rua principal olhei pro céu e nada de cruz. Então lembrei que o escritório de turismo era ali por perto e dobrei à direita.
No mesmo instante, ouvi um sino. Não pode ser, pensei, mas juro que ouvi e acabei seguindo reto ao invés de dobrar. Reconheci as ruelas e lembrei de ter visto uma noiva naquela suposta igreja. Cheguei lá e nada de cruz. Não era igreja, e sim um hotel. O sino deve ter sido na minha cabeça e a noiva devia tá lá só tirando foto na escada.
Estacionei a bike e resolvi entrar pra pedir informação. Parle vous anglais? Um pouquinho, disse a moça atrás do balcão. 5 minutos depois sai de lá com um mapa, com as ruas que me levariam à catedral traçadas em vermelho. Merci beaucoup, au revoir!
Lá vai eu e a magrela ruela a baixo. As pessoas caminhando de um lado, carros do outro, mapa voando na cara. Até que achei a Rue Grande e dali reconheci o caminho para a igreja de verdade.
Estava vazia. Peguei uma vela e depositei dois euros na urna. A igreja era em forma de cruz, aliás várias igrejas aqui tem esse formato, se não todas. E mais de um altar. Tinha vários santos e cada um tinha seu próprio candelabro. Mas era tudo muito sinistro, pra falar a verdade. Fora de ordem, de uma maneira que eu não sei explicar.
Fiz a volta no altar principal e notei que o castiçal do Santo Antônio tinha uma vela só e resolvi que era ali mesmo que eu ia rezar. Não que eu precise de marido, noivo ou namorado. Pelo contrário, preciso só de um jeito nessa minha história. Pedi e, claro, agradeci. Sou péssima nessas coisas, mas fui muito sincera e sempre vale a tentativa.
Saí aliviada e pronta para cometer o pecado da gula. Do tipo: já rezei, agora posso tomar um sorvete que não engorda! Mas acabei optando por um suco de laranja. Parei no quiosque e pedi um suco natural de laranja com meu francês "bão". Ainda bem que laranja em francês é orange. Bon journée. Merci, à tout à l'heure.
Tomei meu suco de canudinho e resolvi que já era hora de voltar pra maison. Afinal, eu ainda tinha que descobrir como voltar pra lá. Por mais sorte do que competência, encontrei a rua certa e voltei na contramão mesmo, sem querer arriscar de me perder.
Na volta, ouvi alguém falando em português e pensei: primeiro o sino, agora português. Estou ouvindo demais. Mesmo assim, quase que automaticamente, parei a bicicleta e perguntei: - português? E depois da resposta afirmativa, emendei: - brasileiro?
E foi assim que eu conheci dois paraíbas aqui em Valence. O Victor e o Arthur. Nunca tinha visto um paraíba na vida. Agora já conheço dois! Conversamos um pouquinho em "brasileiro" e seguimos nossos caminhos. E assim foi minha pequena aventura do dia!
3 opinadas:
Coisa bem boa fabizoca! Aproveita cada minutinho, faço ideia o quanto essas experiências vão ser incríveis pra tua vida... Te adoroooo negrinha! beijoooo
Faith! Palavra linda. Lindo como o texto. E falando em entrar em igreja para agradecer, me lembrei de uma pequena história: http://bubbleshooter.blogspot.com/2008/08/um-lugar-encantado-depois-de-4-meses.html
24 dias...contados na folha do calendário! AMOO
Pra Fabizinha que me conhece não é surpresa declarar minha aversão absoluta por igrejas, muita arquitetura para pouco conteúdo ... hauihaiuhaiahia ... mas de qualquer forma, se tratando de uma história de Fabih e de um prédio francês me causa encantamento ... ainda mais nas suas palavras.
Seu hobby não está mesmo nas orações religiosas, acho que você harmoniza melhor com as orações gramaticais. Se seu francês não é bom, eles que tratem de arrumar um ótimo tradutor porque vc faz misérias com o português ... quando leio seus textos sempre imagino uma pequena garotinha pra lá de sapeca que aprendeu, como ninguém, a jogar com as palavras ... vc é muito mais que uma simples jornalista amiga, vc é uma fantástica contadora de histórias. Sou sua fã número 1! Beijoks, te amo sempre mais ...
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