vermelho poá
Outubro 11, 2010
Outubro 06, 2010
Setembro 30, 2010
fim de setembro
30 dias inteiros se passaram e o meu tão esperado setembro chegou ao fim. E passou tão rápido como tudo nessa minha vida desregrada, fora de rotina e cheia de sentimentos para sentir e pensamentos para pensar.
Quando as pessoas me perguntam (e como perguntam!), como é voltar depois de tanto tempo, a minha metáfora é precisamente coerente com o meu estado de espírito. Tenho a sensação de estar saindo de um coma, abrindo meus olhos lentamente para pessoas, lugares e situações.
A vida por essas bandas, as minhas bandas, seguiram sua ordem natural e se transformaram naquilo que obviamente se tornariam. Como uma rosa que um dia fora botão. As coisas caminharam em linha reta e nenhuma surpresa até então. A não ser pela magreza do Faustão.
Eu perdi a sequência dos fatos, o desenrolar dos acontecimentos, são muitos fins e poucos meios. As coisas mudaram de um jeito ruim e insosso para mim. Como se tivéssem mudado sem mais nem menos. E aquelas que não mudaram parecem perdidas e melancólicas. Paradas no tempo, nostálgicas, abandonadas, esquecidas. Inevoluídas, palavra que não existia e acaba de ser inventada.
Além das coisas que mudaram e das coisas que não mudaram têm aquelas que eu não sei dizer. As que talvez estejam iguais e eu diferente. Os as que talvez estejam diferentes e eu igual. Já dizia não sei quem que as coisas não são como elas são e sim como nós somos. Confuso?
Enfim. Não sou fã de Victor e Léo e tão pouco do resto do sertanejo que tomou conta do meu país na minha ausência, mas preciso concordar com a letra clara que traduz bem essa sensação de confusão. "Não sei o que mudou, mas nada está igual".
E assim vou me readaptando a ser o que eu era. Os mesmos bons e velhos amigos, a cerveja no bar, a música brasileira ao fundo. As piadas incansavelmente repetidas que nunca perdem a graça. Todas as nossas histórias dos tempos de colégio e faculdade e as pessoas que habitaram esses tempos, esbarrando em mim casualmente entre tantos outros rostos conhecidos, registrados em algum lugar no meu inconsciente. As figuras de uma vida inteira, ali, vivendo suas próprias vidas bem debaixo dos meus olhos.
Em muitos momentos, nesses 30 longos e inexplicáveis dias, fui ávida ao encontro das minhas memórias mais remotas, com muito medo de tê-las perdido entre um avião e outro. E outras ainda, teimosas, remontaram-se na minha mente sem permissão. Donas de si, despertaram-se aleatoriamente ou com um clique de um lugar, um som.
Assim vou, esperando os próximos dias que virão à mercê das surpresas do futuro e das estratégias maquiavélicas do passado. Estar no lugar em que sempre estivemos, perto daquilo que sempre fomos, é não ter para onde fugir. Mais cedo ou mais tarde, dobramos aquela mesma esquina e um vendaval nos carrega para outro instante da nossa própria história.
Estar de volta é um reencontro. E como são bonitos os reencontros. Principalmente aqueles em que reencontramos nós mesmos.
Setembro 25, 2010
cheguei
Saí da França no dia 30 de agosto. Numa manhã de céu azul, lágrimas e aeroporto. Como sempre. Deixei Mama e Papa do outro lado do vidro, com olhos cheios de água e sorrisos confortantes e preocupados ao mesmo tempo. Lá vai eu, mala, raio-x, segurança e o coração alarmado.
Assim que desapareci da vista zelosa dos dois, me sentei numa cadeira para organizar as emoções e recuperar o fôlego a fim de enfrentar os 11290,747 quilômetros que me separavam de casa. Depois de 723 dias, as 28 horas que ainda faltavam pareciam segundos ou séculos dependendo do ponto de vista.
E assim foi. Voei até Roma e no portão de embarque do vôo para Guarulhos já me senti em casa. A última vez que eu tinha visto tanto brasileiro junto foi no Brazilian Day em 2009. Fomos tomando conta dos espaços, assentos, compartimentos. Preenchemos o silêncio com o nosso português cantado e milagrosamente dormi dez das doze horas de transatlântico.
Quando aterrissamos em São Paulo, passageiros e tripulação bateram palmas. E eu enchi os olhos de água: cheguei. Era 31 de agosto e eu tinha prometido para minha mãe, estar em casa para o meu aniversário. Em terras brasileiras, senti minha promessa quase cumprida.
Fora do avião, já começou o caos e a desorganização particulares do nosso Brasil brasileiro. Mas nada parecia me incomodar, muito pelo contrário. Achei até engraçado os funcionários da Gol pulando entre as esteiras e gritando enlouquecidamente uns com os outros. Enfim, entrei no meu último vôo, aquele com destino a Porto Alegre. Alegre era pouco. A alegria só era menor que a ansiedade que a este ponto já me devorava sem dó nem piedade.
Dizem que a melhor vista de Porto Alegre é a vista de quem volta. E eles estão certos. As pessoas que me ouviram dizer que há dois anos estava fora de casa, abriam espaço para mim nos corredores do Salgado Filho: vai que tu tens pressa. E eu tinha. Pressa e nenhum cansaço.
Desci a escada, dobrei a direita e lá estavam eles. Estavam onde eles deveriam estar e eu também. Finalmente, estávamos juntos. Como a família que somos.
Assim, juntos, felizes e em família, comemoramos o primeiro de setembro na manhã seguinte. 24 aninhos e muitas histórias para contar...
Agosto 24, 2010
olive
Foi na França que desenvolvi minha obsessão por azeitonas. A beira dos meus 24 anos resolvi comer todas as azeitonas que eu não comi em todos esses 23 anos.
E não tem como não se sentir tentada pelas lu
strosas bolinhas verde-oliva nesse país. Elas estão em toda a parte. Mesas de bares e restaurantes, festas de aniversário, casamentos, rodas de amigos. Qualquer motivo é motivo pra beliscar azeitonas ou transformá-las em recheio de salgadinho ou cobertura de pizza.
strosas bolinhas verde-oliva nesse país. Elas estão em toda a parte. Mesas de bares e restaurantes, festas de aniversário, casamentos, rodas de amigos. Qualquer motivo é motivo pra beliscar azeitonas ou transformá-las em recheio de salgadinho ou cobertura de pizza.Elas vêm em enormes potes de conserva ou são vendidas à quilo no mercado público em desengonçados sacos plásticos. Tão lindas e regulares, eu quero comer todas. Sempre digo pra mim mesma "essa é a última", mas nunca é e eu sei muito bem disso.
As coisas só pioraram depois que a minha mãe disse: "que coisa boa, azeitona faz bem pra saúde". Segundo ela, aumenta o colesterol "bom", que por sua vez diminui o "ruím". Anyways.

Não terei espaço na mala para levar essa especiaria francesa comigo. Mas estou levando essa mania dos franceses e muita vontade de petiscar as verdinhas. Nada de poupar azeitona na salada.
Agosto 22, 2010
mariage
Antes ainda de eu chegar na França, a Cindy me disse que uma amiga dela ia casar e que eu estava convidada para a cerimônia. -Vai ser na tua última semana aqui. Tá bem pensei, mas nem pensei muito porque parecia tão longe e eu não conhecia a noiva nem ninguém.
Quando ela entrou na igreja ontem, fiquei emocionada. Dois meses se passaram e eu conhecia muitas das pessoas presentes. Pessoas das quais aprendi a gostar num estalar de dedos e que apesar de não falarmos a mesma língua, temos o riso solto em comum.
Não entendi nada da missa e nem precisava. Entendi todos os versos cantados à capela pela voz cortante de Albertine e ouvi a hora do sim: -Oui, Oui. Aceite essa aliança como prova do meu amor e da minha fidelidade. Rezaram. Amém.
De lá saímos para a festa. E como sabem ser felizes, essas pessoas. Primeiro aperitivos e drinques. Então veio a janta: salada, salmão e frango com batatas e champignon. Tudo muito bom e bonito. Uma pena que eu não podia mais comer e parei no salmão. Ainda por vir, o queijo, o café e o bolo.
Entre um prato e outro, homenagens da família e amigos do casal (inclusive nossa). E muito vinho. Tanto vinho que todo mundo estava impressionado com o meu francês. Até eu. A festa só terminou as seis da manhã e nós só saímos de lá quando as luzes já estavam acesas e as garrafas de champagne vazias.
Vive les Mariés! Vive La France!
Agosto 18, 2010
e quanto a mim?
Não me lembro se era um congresso ou só uma palestra avulsa no auditório do Campus I. Era bem no comecinho da faculdade e o palestrante solicitou que nós escrevessemos em um papelzinho como nós achávamos que estaríamos em 5 anos.
Eu também não lembro da minha resposta, mas lembro da resposta de um colega que disse que em 5 anos ele seria o primeiro jornalista surdo-mudo do país (ou algo do tipo). E ele deve ser.
Eu provavelmente não sou hoje o que eu pensei que seria naquela época. E o problema não é esse. O problema é que eu me peguei aqui pensando em como seria a minha vida em 5 anos e se eu tivesse que escrever num pedaço de papel, eu não saberia o que dizer.
Então aqui vai para todos que perguntam:
Eu não sei o que vou fazer quando eu voltar pra casa. Não tenho idéia de como será a minha vida daqui a 5 anos, 3 anos, 1 ano, 1 mês. Quando eu me dei conta, eu estava aqui sentada tentando adivinhar o futuro. Uma coisa é fazer planos, outra é tentar adivinhar. Eu poderia fazer um bolão comigo mesma. Mas melhor deixar pra lá.
A vida tem sempre tantas possibilidades, mas quando a gente tem emprego, namorado e residência fixa, a gente não considera tudo o que porderíamos nos tornar. A gente só considera a maldita conta de luz pra pagar.
É sempre quando uma parte da nossa firme estrutura cai que nos damos conta que ainda podemos ser o que quisermos. Ou quando não temos emprego, namorado ou residência fixa. Melhor pensar que se pode ser qualquer coisa do que pensar que no momento não se é coisa nehuma. Que venham os próximos 5 anos... com todas as surpresas que tiverem que vir. I'm ready!!

"Life is not about finding yourself, life is about creating yourself."
George Bernard Shaw
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